Como lidar com a criança, frente à morte e ao luto

Por Sara Santos Caetano (02-11-2018)

É impossível falar da morte sem falar da vida! Esse tema é complexo, considerando que em nossa cultura a morte é vista como algo a ser escondido e negado. Não é comum diálogos sobre esse tema. Isto porque falar sobre a morte significa compreender a finitude da vida e seu ciclo natural. Contudo, ao negar o diálogo sobre a morte, nega-se também a realidade: a vida tem início, meio e final. Nesse sentido, se para os adultos é extremamente difícil tocar em sua própria finitude, imagina para a criança? Muito se pensa que a criança não tem “capacidade para compreender” ou que “vai ficar muito triste” se algo for dito a ela, ou ainda “isso não é assunto de criança!”.

Então, devemos conversar sobre a morte com a criança? Para responder a essa pergunta, é preciso antes explicitar os modos como a criança adquire a noção de morte, de acordo com os períodos e faixas etárias infantis. Até os 2 anos o conceito de morte não existe, apenas é manifestada como ausência e falta (período sensório motor). Entre os 3 e 5 anos, as crianças entendem a morte como reversível e temporária (período pré-operacional). Dos 6 a 9 anos, passam a entender a morte como definitiva e irreversível (período operacional). E da fase que vai dos 10 anos até a adolescência entende-se que a morte é universal, irreversível, definitiva e também os aspectos fisiológicos que levaram à morte são compreendidos (período de operações formais).

Assim como o adulto, a criança também passa pelo processo de luto e esse processo pode ser mais extenso. Pode-se dizer que há três fases significativas no luto infantil: o protesto, em que a criança não acredita que a pessoa esteja morta e luta para tê-la de volta, agitando-se e chorando na busca de qualquer imagem ou som que personifique a pessoa ausente; o desespero e a desorganização da personalidade, fase na qual a criança começa a aceitar o fato de que a pessoa amada realmente morreu; e a esperança, onde a criança busca novas relações e segue a vida de maneira natural.

As reações da criança à perda e separação vão depender de vários quesitos: vínculo com quem morreu; causa e circunstâncias da perda; o que é contado para a criança e as oportunidades que são oferecidas para ela falar e perguntar; relações familiares após a perda (mudança de padrão de relacionamento e permanência com pai/mãe sobrevivente); padrões de relacionamento da família anteriores à perda.

Para ajudar a criança no processo de luto é preciso promover comunicação aberta e segura dentro da família, informando a criança sobre o que aconteceu; assegurar que terá o tempo necessário para elaborar o luto; disponibilizar um ouvinte compreensivo toda vez que sentir saudade, tristeza, culpa e raiva; e garantir à criança que ela continuará tendo proteção.

 Listamos abaixo dez maneiras de auxiliar a criança no enfrentamento da perda e do luto:

1. Encorajar a criança a expressar seus sentimentos.

2. Responder às perguntas com sinceridade e expressar suas emoções honestamente.

3. Discutir a morte de forma que a criança possa entender.

4. Falar com a criança de acordo com seu nível de desenvolvimento.

5. Ser paciente. Permitir que a criança repita a mesma pergunta, expondo sua confusão e seu medo.

6. Não criar expectativas.

7. Sugerir caminhos para que a criança possa lembrar-se da pessoa (desenho, cartas...).

8. Aceitar os sentimentos, percepções e reações da criança, bem como diferenças de opiniões, dúvidas e questões.

9. Indicar serviços especializados, se for necessário.

10. Preparar a criança para continuar sua vida. Reforçar que ela se sentirá melhor depois de um tempo (lembrando que esse tempo é diferente para cada um).

Também é importante que se comunique a criança sobre a morte do ente querido sem fantasias e com a realidade. Algumas pessoas evitam levar a criança nos rituais como velório e enterro e, também, utilizam frases do tipo “fulano virou uma estrelinha”. O importante é dizer sempre a verdade para que a criança consiga compreender o ciclo natural da vida: seja com a morte de um ente querido, a quebra de um brinquedo, a troca de escola, a mudança de um coleguinha para outra cidade. Deve-se dar a oportunidade para a criança escolher ir ou não ao velório e ao enterro, pois trata-se de um ritual de despedida, importante no processo do luto.

Por fim, é sempre interessante que os tutores da criança (pais ou responsáveis) conversem com ela priorizando a verdade e a realidade da vida.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

PIAGET, J. A Construção do Real na Infância. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1996.

Piaget, J. O Nascimento da Inteligência na Criança. 4ª ed. Rio de Janeiro: LTC , 1987.

VELASQUEZ-CORDERO, M. (1996). First grade teacher’s feelings about discussing death in the classroom and suggestions to support them. Acesso em 2018. Disponível em http://www.eric.ed.gov/ERIC Docs/data/ericdocs2sql/content_storage_01/0000019b/80/16/0b/3b.pdf

TORRES, W. A Criança Diante da Morte. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

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